“OLUBAJÉ – UM BANQUETE PARA O REI”: IMPÉRIO DA TIJUCA JÁ TEM ENREDO PARA O CARNAVAL 2018!


Salve, salve!

A Império da Tijuca apresentou neste domingo, durante feijoada de São Jorge, o seu enredo para o Carnaval 2018. “Olubajé – Um banquete para o rei” é o tema que a Verde e Branco do Morro da Formiga levará para a Sapucaí no próximo Carnaval. 

O enredo será desenvolvido pela dupla de carnavalescos da escola, Jorge Caribé e Sandro Gomes.

Nesta segunda-feira, dia 24, haverá uma explanação do enredo para os compositores da escola, a partir das 20h, na quadra, localizada na Rua Medeiros Pássaro, nº 84.

Confira a sinopse da Império da Tijuca:

G.R.E.S.E.  Império da Tijuca – 2018

Olubajé – Um banquete para o rei

JUSTIFICATIVA

África, força divina! Por séculos, vem de lá toda a força da natureza e dos Orisás que conduzem o mistério da vida, o segredo da doença e o remédio da cura. O jogo do Ifá, consagrado do Candomblé revela que é tempo de oração e respeito. Nasce o dia! Surge a estrela da manhã: o sol, com toda a sua quentura. A terra se alimenta e nutre o corpo de vida e saúde. Do calor da natureza, grande pai e senhor, dono do Ayê.

O Império da Tijuca pediu agô por seu povo. Elevou as mãos ao céu e fez surgir um grito de fé. Da esperança verde e branca do Morro da Formiga, veio o clamor: atotô, ajuberu! Atotô, Obaluaiê!

Filho de Nanã, sua mãe biológica, que mesmo ao rejeitá-lo diante de sua fraqueza, por não entender que tu eras especial e que só ela seria capaz de gerá-lo, por caminhos não explicados; foi permitido pelo Criador, o destino de transformá-lo no senhor da quentura. Obaluaiê vai viver e se curar nas mágicas águas salgadas do Reino de Olokun, no colo maternal e piedoso de Yá Omon Ejá (a mãe cuja os filhos são peixes) e dela recebe afeto, amor e a cura. Assim começa a nossa história.

O morro do Império da Tijuca curva-se diante de Ti, ó senhor para homenageá-lo, contando a tua história para milhões de pessoas que vão entender a tua vida, através desta ópera a céu aberto e assim para aqueles que não o conhecem aprenderem a amá-lo e respeitá-lo.

Nos deparamos com uma incrível coincidência: as formigas do povo Iorubá (formigas e cupins), que são os símbolos de Obaluaiê na África, divindade da terra. Suas incorporações mirins denominadas de erês, são batizados por esses nomes e o símbolo da escola, junto com a coroa imperial, são as formigas que também prestam o nome para este morro tão tradicional da comunidade carioca. Aí percebemos que o caminho era certo. Com as formigas, palhas e suas pipocas, pedimos proteção para iniciarmos os nossos trabalhos.

Através do sopro divino da inspiração, o Império da Tijuca faz do seu enredo, um grande sirê para ver Obaluaiê dançar ao toque de opanijé. Chegou a hora! O ritual vai começar! Giram as baianas na avenida! Entrem ao som do adjá! Todos querem ver o lindo balançar das palhas de Obaluiaê!

“Pai Obaluaiê, venha nos valer! Cubra o nosso pavilhão e abençõe a coroa da nossa sinfonia imperial. Que a terra sagrada, solo onde são lançadas as sementes de saúde e cura, seja a luz e o caminho para a vitória da nossa comunidade.”

Atotô, ajuberu! Atotô Obaluaiê!

SETOR 1 – NASCIMENTO DE OBALUAIÊ

Omolu, o filho da terra. Nascido do ventre de Nanã, Saluba, foi criado no seio de Yá Omon Ejá. Após sua cura, retorna conduzido nos braços de sua mãe adotiva que o devolve para o convívio de sua mãe ancestral. Assim começa a sua saga sob o solo do povo Nagô. Com a sua origem em terras Dahomeanas, foi batizado e até hoje é conhecido com vários nomes: Omolu, Obaluaiê, Oluaiê, Selegbatá, Sapanã e outros. Todos em um só. O grande senhor do sol e da terra. Com o tempo, Obaluaiê transformou-se num poderoso guerreiro, feiticeiro e caçador, que se cobria com a palha da costa, não apenas para esconder as chagas, mas porque agora o seu corpo brilhava como a luz do sol.

SETOR 2 – OBALUAIÊ E O CALOR DA TERRA

O calor é a chama da vida. É o combustível essencial de tudo o que há de mais sagrado no universo. O sol escaldante da África milenar serve de fundo para a nossa criação. O calor do sol, da terra rachada e cansada de sofrimentos e dor, acolhe a morte, senhora do descanso eterno e irmã da vida. Assola o seu povo com doenças mortais infectocontagiosas, como no passado a varíola avassaladora e doenças endêmicas que em outrora foram extintas, mas por hora voltaram a assombrar a nossa população, como a febre amarela, tão antiga e ao mesmo tempo tão nova. É a prova que em círculo, a nossa terra se movimenta com o sol e nada desaparece. Tudo o que há na Terra, permanece sob o mistério do oculto.

Obaluaiê é aquele que se faz presente no Orin, que é o calor de Omulu e no asó ikó. Com o seu poderoso sarará faz resplandecer a luz de brilho incandescente que toca o coração dos homens e os acompanha por todos os estágios da vida. Nas guerras, nos amores indecifráveis, nos mistérios da caça, na pipoca que estoura na terra. Obaluaiê, o senhor poderoso da fartura está na vermelhidão das chagas, no calor da febre e da varíola, no meio-dia, na insolação.

SETOR 3 – NINGUÉM VIVE SÓ

Acompanhado de sua família, o povo Sakpatá é composto por orisás ligados à terra e a transformação da humanidade. Seus cultos se difundem entre terra, água, vento e fogo e os três reinos da natureza: mineral, vegetal e animal.

Nanã, senhora dos pântanos, lamas e argila, ligada ao ritual de criação do ser humano, junto com Babá Alamurerê (senhor da argila branca), orisá criador do primeiro homem, criador da boa terra com seivas vegetais, o ejé (sangue) e emi (sopro da vida). Nanã é senhora dos caracóis e búzios e da agia, grande rã, dos pântanos yorubás.

Osumaré, serpente sagrada do arco-íris e protetor do povo fon, a grande cobra encantada que acompanha Obaluiaê. Seu símbolo é o mundo sem fim, sua cobra engolindo o rabo. Arroboboi!

Yewa, orisá feminino que se apresenta na cor vermelha do arco-íris e na materialização da cobra fêmea que gera um filho com Omolu. Protege Orumilá contra as perseguições de Babaegun.

Ossain, seu companheiro inseparável. Detentor do poder da cura, através das plantas medicinais. Orisá vindo de Iraó, com o compromisso de ser, medico de Omolu, seu fiel aliado.

Irocko, orisá de origem Jeje Nagô, simbolizado pela sua majestosa árvore que liga e une os dois mundos: o orun e o ayê (o céu e a terra). Suas raízes sustentam o povo de fé.

SETOR 4 – O POVO EM BUSCA DE AGRADECIMENTO LHE OFERECE O OLUBAJÉ

Olubajé, grande banquete oferecido para o grande mestre. Festa de purificação e crescimento religioso é de muita importância para o povo negro e para a comunidade de terreiro. É uma das mais importantes cerimônias do Candomblé Yorubá (tradições, vindas da Nigéria). Assim como na África, os orisás se reuniram para homenagear Omulu em busca de união entre os cultos, nós integrantes do Império da Tijuca, vamos usar como exemplo para celebrar essa festa e pedir a paz e a união entre os sambistas, nesta grande oportunidade, no altar do samba, que é a Marquês de Sapucaí. Que chegue a hora tão esperada para a nossa comunidade! Vamos nesse dia representar com humildade e sem denegrir a imagem do orisá, sua forma de culto e tradições milenares. E crendo nisso, rogamos ao grande senhor do povo Yorubá Jeje Nagô com o pedido de silêncio: atotô, diante de Ti.

Que tudo ocorra em nome de sua mãe Yá Nanã, que a vitória seja certa e com isso possamos trazer a alegria para essa comunidade tão carente e sofrida, tal como sua história. Que tenhamos motivos para comemorarmos com o seu olubajé. É chegado o final de tudo. Que os ventos bons de Iansã soprem para bem longe como se estivessem varrendo toda a mazela, doença e a morte. E a vida com suas cores emoldurem nossa criação para guardarmos essa história na galeria vitoriosa do G.R.E.S.E. Império da Tijuca.

Trabalho realizado com carinho pelos carnavalescos Jorge Caribé e Sandro Gomes.

Texto escrito por Jeferson Pedro, nas mágicas páginas de um livro chamado carnaval.

Bibliografia

  • BASTIDE, R. As religiões africanas no Brasil. São Paulo: Pioneira, 1989
  • GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
  • LÉVI-STRAUSS, C. A estrutura dos mitos. In Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Cap. XI, p. 237-265.
  • PESSOA DE BARROS, J.F. O banquete do Rei… Olubajé: uma introdução à música afro-brasileira. Rio de Janeiro: Uerj, Intercom, 1999, p. 178.
  • VERGER, Pierre. Lenda dos orixás. Salvador: Corrupio, 1981, p. 59.
  • Transmissão oral do carnavalesco Jorge Caribé

Glossário:

  • Agiá – rã sagrada de Nanã
  • Agô – licença
  • Arroboboi – saudação de Osumaré
  • Ásó iko – roupa de palha
  • Atotô – silêncio
  • Ayé – Terra
  • Baba alamurere – pai da argila (tipo de Osalá)
  • Candomblé – veio do Can dom ble. Religião reinventada para o Brasil
  • Dahomé – território africano. Hoje conhecido como Benin
  • Eje – sangue
  • Emi – sopro da vida dado por Olorum
  • Erês – divindades mirins
  • Fon – povo africano
  • Iansã – vem do Yorubá Ya mensã Orum. Mãe dos 9 filhos.
  • Ifá – divindade do oráculo, adivinhação
  • Iraó – lugar na Nigéria
  • Irocko – orisá jeje do culto à gameleira
  • Jeje – povo africano
  • Nagô – território africano
  • Nanã – Orisá ligada a criação do mundo
  • Nigéria – país africano
  • Obaluaiê – rei do céu e da terra
  • Olokun – senhor dos oceanos, pai de Ya omon ejá
  • Olubajé – cerimônia religiosa ao culto de Omulu
  • Omolu – nome dado ao orisá
  • Opanijé – toque ritualístico para Omolu
  • Órin – sol
  • Orisá – guardião da cabeça
  • Orum – céu
  • Orumilá – orisá do culto a Ifá. Deus da agricultura
  • Ossaim – orisá das folhas
  • Sakpatá – origem de Omolu
  • Saluba – saudação do orisá Nanã
  • Sapanã – orisá da quentura
  • Sasará – porrete mágico de Omolu ou aparamento contendo a cura.
  • Selegbatá – nomenclatura do povo Jeje para Omolu
  • Siré – dançar
  • Yá – mãe
  • Ya omom ejá – a mãe cuja os filhos são peixes
  • Yewá – orisá feminino do arco-íris
  • Yorubá – povo que vive na Nigéria

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